sexta-feira, 18 de julho de 2008

TECENDO O MANTO SEM DESVENDAR A TRAMA

Em O Manto de Penélope,o historiador e sociólogo João Pinto Furtado, ex-professor da Universidade Federal de Ouro Preto, atualmente lecionando na UFMG, encara um desafio considerável. Quer revisar a Inconfidência Mineira para “contestar a visão mítica e heróica” de Tiradentes e seus companheiros. O título do livro faz alusão
à lenda grega segundo a qual Penélope tecia um manto, desmanchava os pontos e tornava a tecê-lo, na longa espera de que o marido, Ulisses, voltasse da Guerra de Tróia.

Na rica historiografia da Inconfidência, um dos mais importantes tópicos que precisa de urgente revisão é a morte de Cláudio Manuel da Costa. A versão oficial foi a farsa do “suicídio”, sob suspeita para vários autores, inclusive contemporâneos, mas só recentemente desmontada, com a descoberta da identidade do legista que confessou ter falsificado o laudo. Furtado omite sua posição sobre a morte de Cláudio, repetindo apenas que o inconfidente “teria cometido suicídio (ou sido assassinado)”.

O livro, que não se propõe a servir de guia para iniciantes no assunto, alterna momentos sérios com outros nem tanto. Exemplo dos primeiros são as contestações à Devassa da Devassa, obra do endeusado brasilianista Kenneth Maxwell (sobre quem um historiador especializado chegou a duvidar que tenha ao menos lido os autos do processo dos inconfidentes).Furtado aponta equívocos graves de Maxwell, como a afirmação simplista de que a Inconfidência foi um movimento de “magnatas endividados”.

Outro aspecto positivo: Furtado organizou em tabelas e quadros, informações dos Autos de Devassa sobre atividades econômicas, bens e patrimônio de vários inconfidentes, facilitando assim a visualização desses dados.

Entre as passagens despropositadas e fora de contexto, destaca-se quase uma página, como preâmbulo a comentários sobre as roupas seqüestradas aos inconfidentes, comentando regras de moda atual: tecidos, cores de ternos e gravatas! Com isso, a bibliografia, à qual faltam autores importantes sobre a Inconfidência, como Adelto Gonçalves, José Crux Rodrigues Vieira ou Ronald Polito, abriga (pasmem !) o título Chic homem, sem nada a ver com o tema central.

Riscos e generalizações

Falando em tema central, algumas das principais questões sobre as quais Furtado pretende urdir sua trama referem-se à unidade do movimento; ao seu caráter revolucionário e alcance; e à atuação de Tiradentes.

O autor arrisca, porém, a credibilidade de sua pesquisa e a isenção de suas intenções ao pinçar episódios que o levam a destacar que diversos inconfidentes “foram acusados” ou sobre eles “pesavam suspeitas” de comportamento pouco ético.

Rastreando os treze anos em que Tiradentes serviu à milícia da Capitania das Minas, o autor só encontrou o fato de que o alferes “sofrera queixas” de abuso de autoridade por parte do também inconfidente Domingos Vidal de Barbosa Lage, erroneamente identificado como padre,quando na verdade era médico.

Em uma generalização que em nada serve à História, Furtado chega ao primor de afirmar que, se nas Minas prevaleciam ambições e prepotências, “muitos inconfidentes”, por ocuparem posições de destaque na Capitania, também tinham essas características !

A Inconfidência Mineira de 1789 e suas personagens permanecem envoltas em mistérios e vítimas de toda sorte de interpretações equivocadas (involuntárias ou de má-fé...). O episódio mais heróico de nossa História ainda é, mais de duzentos anos depois, um rico território às espera de autores capazes de compreendê-lo em sua grandeza,o que este livro parece não ter conseguido. O desvendamento da meada que Tiradentes prometeu tecer e que não seria desmanchada nem em cem anos, de fato ainda não ocorreu.

O Manto de Penélope, de João Pinto Furtado. Companhia das Letras, 528 pág., R$ 39.

(*) Sergio Amaral Silva (samaralsp@ibest.com.br) é jornalista, ganhador em 2002 do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, categoria Literatura, além de pesquisador da Inconfidência Mineira.