Em matéria publicada no jornal ESTADO DE MINAS sob o título "Os profetas que faltam em Congonhas", um sacerdote propunha a substituição de Baruc por Miquéias no magnífico conjunto esculpido pelo mestre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, no adro do santuário de Congonhas do Campo.
A propósito, julgo oportuno contribuir com a informação, pouco conhecida, do motivo da escolha do profeta Baruc entre os doze que compõem a obra-prima da Basílica de Bom Jesus de Matosinhos Ao retratar, na pedra-sabão, doze dos inconfidentes mineiros como profetas, o mestre Lisboa fez questão de apôr sua assinatura á genial obra, para que, no futuro, não pairasse dúvida quanto à sua existência (infelizmente, ainda contestada...) e autoria. Assim, selecionou profetas com as seguintes iniciais nos nomes:
A, de Abdias
E, de Ezequiel
I, de Isaías
J, de Jeremias
A, de Amós
D, de Daniel
I, de Jonas e Joel
N, de Naum
H., de Habacuc
O, de Oséias
Os dois profetas na mesma letra (I) assinalam a vogal tônica, sendo que em latim, língua básica da liturgia católica, o I e o J têm o mesmo valor fonético. Basta lembrar da inscrição “INRI” na cruz de Cristo, iniciais de “Iesus Nazarenus Rex Iudeorum”, significando “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”
Nota-se que, para completar o acróstico, faltava o L. Como não existisse profeta com essa inicial, o mestre Lisboa optou por Baruc, cujo nome em hebraico significa “louvado”. Isso justifica a presença de Baruc, e não de Miquéias ou qualquer outro, entre os profetas de Congonhas do Campo.
Segundo a Bíblia, Baruc, filho de Nerias, era discípulo e secretário de Jeremias. Esperava a glória de Israel e sua principal oração era a dos exilados: ”Assim diz o Senhor: abaixai o vosso ombro e o vosso pescoço e servi ao rei da Babilônia; estareis de assento na terra, que eu dei a vossos pais. Se porém não ouvirdes a voz do Senhor vosso Deus, para vos sujeitardes ao rei da Babilônia, eu vos farei sair das cidades de Judá para fora de Jerusalém. Tirarei de vós toda voz de regozijo, e voz de alegria, e voz de esposo e voz de esposa, e ficará a terra sem rasto de quem a habitasse”.A partir dessa alegoria do exílio, o Aleijadinho escolheu representar em Baruc as feições de seu amigo, o inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, afastado da noiva, Maria Dorotéia, a Marília, pela prisão, poucos dias antes do casamento, e pela sentença que o condenou ao degredo em Moçambique (na prática, perpétuo, pois uma vez vencido o prazo de dez anos, o poeta, assim como outros inconfidentes, foi impedido de voltar ao Brasil).
Na cartela que Baruc segura na mão direita, está gravado o seguinte texto, tirado do capítulo II de seu livro: “Adventum Christi in carne postremaque mundi, tempora praedico, praemoneoque pios.” Ou seja: “Eu predigo a vinda de Cristo na carne e os últimos tempos do mundo, e previno os piedosos”.
Explicada a escolha, fica claro que argumentar pela troca de qualquer profeta no conjunto de Congonhas do Campo, além de um disparate em termos artísticos, equivale a questionar o perfeito e justo equilíbrio perseguido e alcançado pelo Aleijadinho em sua obra-prima, ameaçando atentar também contra sua rica simbologia histórica.
Sergio Amaral Silva
segunda-feira, 26 de maio de 2008
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